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Bons hábitos à mesa

Projetos de merenda escolar que unem educação alimentar e estímulos à agricultura familiar melhoram a qualidade do ensino em municípios brasileiros

 

Com a premissa de que somente crianças bem alimentadas podem concentrar-se nos estudos, municípios brasileiros vêm colocando em prática projetos de merenda escolar que aliam educação alimentar e incentivos à agricultura familiar. Como resultado, além dos seguidos avanços no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), três cidades celebram melhorias na qualidade de vida de toda a população.

Na ação da prefeitura de Paraíba do Sul (RJ), as crianças são incentivadas a comer refeições saudáveis, elaboradas com ingredientes da agricultura familiar pelas 115 merendeiras que atuam nas 28 escolas do município. Que criança poderia imaginar, por exemplo, que o rocambole colorido servido no almoço era recheado de cenoura e beterraba? E que o estrogonofe foi feito com os legumes mais variados, entre eles o chuchu, um dos menos populares entre os alunos?

Gabriela Esteves Ribeiro, coordenadora de alimentação escolar na prefeitura de Paraíba do Sul, conta que tudo começou quando a gestão municipal percebeu que as merendeiras da rede escolar adoravam inovar o cardápio diário. “Decidimos organizar um concurso de pratos e reunir as melhores receitas em um livro, que será publicado ainda em 2013”, conta Gabriela. A obra será distribuída gratuitamente às merendeiras, para permitir que as escolas intercambiem suas ideias.

Assim, durante todo o ano, as profissionais enviaram suas criações à prefeitura, que selecionou os melhores pratos com base em critérios como criatividade e facilidade de preparação. “O concurso mobilizou as cozinheiras a prepararem receitas diferentes, chamando a atenção das crianças sobre a importância de ingerir alimentos saudáveis”, conta. Algumas das receitas mais criativas, na opinião de Gabriela, foram as broas de abóbora, o estrogonofe de legumes, a maionese sem ovos e o rocambole arco-íris. “Pratos diferentes e coloridos são um convite irrecusável aos alunos para provarem alimentos que, em geral, não gostam de comer”, destaca Gabriela, lembrando que são oferecidas quatro refeições diárias às seis mil crianças das escolas municipais. Com 40 mil habitantes, a cidade adquire dos agricultores familiares mais de 40% dos alimentos da merenda. Com um salto de 3.9 para 4.8 no Ideb municipal de 2005 a 2011, Paraíba do Sul é uma das 94 finalistas do concurso anual realizado pela ONG Ação Fome Zero, que reconhece as melhores iniciativas de merenda nas escolas públicas e que, neste ano, contou com cerca de 900 projetos inscritos.

Também entre as finalistas do concurso, Pinheiral (RJ) desenvolveu uma estratégia baseada na ideia de que os alunos devem levar para casa os bons hábitos alimentares adotados nas escolas.“Não adianta a criança comer saudavelmente durante as aulas se a prática não é mantida quando ela está com a família”, avalia o nutricionista responsável pelo programa de alimentação escolar de Pinheiral, Fernando Antônio Cabral de Sousa Júnior.

Assim, a cidade de 22 mil habitantes investe em reuniões periódicas com a comunidade escolar, para discutir bons hábitos alimentares e tirar dúvidas dos pais. Além disso, uma equipe de nutricionistas da prefeitura realiza visitas diárias às escolas, para levantar as necessidades das crianças e fazer avaliações nutricionais. “Organizamos reuniões específicas com as famílias das crianças que estão abaixo ou acima do peso e também adequamos o cardápio escolar conforme as necessidades de alunos que não podem ingerir lactose, por exemplo”, destaca Júnior. De acordo com ele, quando a criança apresenta problemas graves de peso, é encaminhada aos postos de saúde do município, que prescrevem dietas e fazem as orientações adequadas ao seu cotidiano alimentar.

Como parte de uma ação que ocorre em todo o Estado, a prefeitura também organiza, uma vez ao ano, a Semana de Educação Alimentar, para mostrar à população as principais questões discutidas no decorrer de todo o ano no ambiente escolar. A gestão municipal desenvolve ainda um trabalho pedagógico em hortas cultivadas em alguns centros de ensino e também na sede da Secretaria de Educação. “Produtos como couve, almeirão, salsinha e cebolinha são produzidos nessas hortas e distribuídos diretamente às escolas”, conta Júnior. 

Já em relação aos agricultores familiares, o nutricionista afirma que, atualmente, a prefeitura compra ingredientes de quatro produtores, mas pretende ampliar esse número – mesmo que já obedeça à Lei

nº 11.947/2009, que determina que ao menos 30% dos recursos repassados pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) devem ser usados na alimentação escolar. Isso porque o trabalho com os pequenos produtores traz benefícios à cidade, fazendo girar sua economia de forma mais dinâmica. Júnior explica que para expandir a aquisição dos ingredientes dos agricultores locais é necessário, primeiro, orientá-los sobre como diversificar sua produção, já que muitos deles atuam com os mesmos itens.  

Pinheiral possui 15 unidades escolares municipais, que recebem mais de três mil alunos. “Só crianças bem alimentadas se concentram para estudar. Alunos com deficiência de ferro, por exemplo, podem apresentar sérias dificuldades no processo de aprendizagem”, explica Júnior, lembrando que, em 2005, o Ideb da cidade foi 3.9, enquanto em 2011 subiu para 4.7.

Cardápio orgânico e regional

Vinho de miriti, mingau de açaí com arroz, biscoito pipoca de tapioca e jerimum e suco de cupuaçu são apenas alguns alimentos que compõem a merenda das 139 escolas municipais de Igarapé-Miri (PA), cidade com 60 mil habitantes. Também composto por produtos provenientes da agricultura familiar, o cardápio foi criado com base nos hábitos alimentares da população nativa, priorizando alimentos com alto valor nutricional. Kennedy Corrêa Barile, coordenador da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará) em Igarapé-Miri, conta que, ao basear-se em hábitos das populações nativas, a merenda é plenamente aceita pelos alunos.

De acordo com Barile, a prefeitura adquire produtos de mais de 200 famílias, beneficiando cerca de mil agricultores, que se organizam em três cooperativas e duas associações. “Dessa forma, o programa garante a qualidade da merenda escolar e o desenvolvimento econômico e social de comunidades dependentes da agricultura para sobreviver”, pondera Josivaldo Pinheiro Pantoja, secretário de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de Igarapé–Miri. Outro benefício, segundo ele, é tornar as comunidades rurais cada vez mais independentes e qualificadas para atuarem em diferentes frentes de trabalho. Em funcionamento desde 2010, o projeto também qualifica agricultores familiares para que eles saibam como agregar valor à produção e, assim, aumentar sua renda. “Ao ampliar as oportunidades de comercialização dos produtos da agricultura familiar, geramos trabalho e renda aos lavradores e dinamizamos a economia local”, avalia o diretor do Departamento de Economia Solidária da cidade, Antônio Carlos Bastos de Almeida. Ele explica que, antes do projeto, a merenda escolar era elaborada com produtos industrializados dos mercados local e externo, possuindo qualidade muito inferior se comparada à do cardápio atual. Como principais desafios da iniciativa, Almeida aponta a necessidade de identificar as unidades familiares das associações e cooperativas que cultivam os produtos da merenda, organizar sua produção e assessorá-las sobre como conseguir a habilitação para poder ingressar no programa.

Em linha com os municípios anteriores, o Ideb da cidade aumentou, subindo de 2.4, em 2007, para 3.7, em 2011. “As escolas públicas também passaram a atuar com mais frequência em olimpíadas, congressos, seminários e mostras de ciência organizadas na cidade e em outros municípios do Estado”, celebra Barile, da Emater. 

 

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